As últimas horas

Acabei o último Trilho dos Pescadores da minha Rota! O último metro do Trilho da Praia do Telheiro, falta um mero quilómetro para o farol do Cabo de São Vicente. A parte final foi desafiante, mas divertida de se fazer! Pedras brancas saiam do solo por todo o lado, o caminho era através delas. Era preciso malabarismos para saltar de uma para a outra, ou para colocar os pés entre elas. Eu ia tão motivado que saltitava a correr de pedra em pedra, contente por ver o fim à vista e para chegar a tempo de ver o pôr-do-Sol no final. Saltava entre pedras, a mochila agarrada às costas, o sol a descer do Horizonte. A luz perfeita batia-me nas costas, sabia que tinha tempo suficiente para chegar, estava a aproveitar para gozar o caminho e a vista, estava tudo a ficar perfeito.

Vejo agora a estrada alcatroada a escassos metros, mas reparo numa indicação do Caminho Histórico à minha direita. Vejo então no mapa que o último quilómetro da etapa, e da minha Rota, ainda vão pelo campo, fora de estrada. Um cotovelo no caminho à direita, curva à esquerda, e o farol fica em frente! Por esta altura já várias pessoas se sentavam em frente ao forte, à espera do pôr-do-sol. Sabia que me ia juntar a elas em breve. Agora que penso nisso, nem dei por este troço do caminho passar. Só reparo quando chego novamente à estrada, a escassas centenas de metros do farol. Telefono à Sabrina, que tinha chegado de carro entretanto, e convido-a a vir ao meu encontro para fazer os últimos metros comigo. Quando a vejo emociono-me, quando a abraço estou prestes a chorar. Estou alegre, estou emocionado, comovido, entusiasmado! Nem sei o que sentir, mas tenho inícios de lágrimas nos olhos. “Vá, ainda faltam uns metros” diz-me ela. Sorrio, e avançamos de mãos dadas, lado a lado, cada vez mais perto do farol. O Sol está cada vez mais baixo, e a luz dourada vem da nossa direita. Sinto uma chegada apoteótica dentro de mim! Toda a minha concentração está no final, em ver a grande tabuleta que marca o fim (ou o início) deste troço. Estas placas da Rota Vicentina têm sido sempre o ponto final de todas as minhas etapas, independentemente de onde fique a dormir. Chego ao Forte. Finalmente! Mas… não vejo a placa. Procuro por todo o lado. “Não pode ser, não há placa?!” Aqui, no início e final de toda a Rota?! Vejo uma seta de madeira com a tipologia do Caminho Histórico: “Santiago do Cacém 220km”. Não pode ser isto! Onde está a grande placa, onde está o marcador do meu final apoteótico? Não existe, não há nenhum… É o completo anticlímax, o crescendo de emoções deixadas no ar, sem alvo. Quase um balde de água fria, desorientação total, sem o ponto final da minha história. Todas as etapas tinham uma placa da Rota, onde estava a desta, a mais importante de todas?

Tento pôr essas emoções de lado. Entro no forte, vitorioso e sorridente. Olho o farol, com o seu chapéu de metal vermelho. O Sol está a poucos minutos do mar, do lado exactamente oposto a lua já se vê. E está Lua Cheia. Tudo se compõe, tudo está alinhado. Cheguei! Estou no final. Acabou! “E agora, que faço? Salto, grito, rio, choro?” Fico apenas de sorriso aberto a admirar a conjugação de todos os elementos. Levanta-se um vento forte e muito frio. No horizonte, uma densa neblina parece que se materializou em minutos, dando um toque de maior mística. Salto, tiro fotos, filmo, rio-me, rio-me muito! Abraço-me à Sabrina! Nunca tiro a mochila, não quero, faz parte de mim agora. E, no entanto, não consigo deixar de pensar no raio da placa! Onde estará? Porque é que não há nenhuma aqui? Não consigo afastar a sensação de estar incompleto. Também não há tempo para isso. O Sol está-se a pôr! Saímos do forte já com o segurança à porta para o fechar. Juntamo-nos ao grupo disperso sentado na falésia, banhado pelos raios dourados do fim de dia. O Sol está baixo. Muito baixo. Entra na camada de neblina, pouco depois toca no mar. Ficamos a vê-lo dissolver-se lentamente, a passar para lá do horizonte, a levar um novo dia a alguém no Mundo. É bonito, é emocionante, é comovedor. Bato palmas (sou defensor que o devemos fazer em todos os espectáculos naturais), agradeço ao Sol a companhia dos últimos dias, faço-lhe uma vénia com a cabeça. O céu agora é da Lua, grande e luminosa no fundo escuro. Ficamos a vê-la, imensa. São horas de ir, mas não quero partir. Estou ligado a este lugar, à ponta de Portugal e da Europa. Não sei mais que fazer. Resolvo filmar a minha despedida, o final do meu tempo a andar. Olho o farol e olho a Lua. Abro a mala do carro, coloco a mochila lá dentro. Fecho a mala. Respiro fundo, olho de novo para a Lua, já é noite cerrada. A luz do farol, já ligada, dá voltas. A neblina espessa mostra um tubo de luz que sai dele, à roda, num ciclo regular. Despeço-me dele, fica guardado na memória. Entro no carro, lugar do passageiro. Vamos lá!

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Escrita, Fotografia, Natureza, Portugal, Viagens com as etiquetas , , , , , , , , , , , , . ligação permanente.

And what is your opinion?

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s