Cidade suspensa

Ou Uma ida ao Chiado num Domingo de chuva

(Escrito em Dezembro de 2010, um exercício de reportagem para um workshop de Escrita de Viagens)

Desta não estava á espera. Numa tarde de Domingo no coração do Chiado contava com tudo menos encontrar as ruas…vazias. Afinal, estamos em plena época Natalícia na zona nobre de compras de Lisboa. “É da chuva.” Diz-me o vendedor a quem compro uma dúzia de castanhas assadas. “Isto está sempre movimentado, sempre, todos os dias. Hoje está fraco por causa da chuva.” “Chuva?”, penso eu. Constato que os anos passados na Holanda me deixaram imune às chuvas leves, verdadeiros mini-dilúvios para o comum dos Portugueses. “Eu estou aqui sempre aos Domingos, a não ser que chova mesmo muito.” Há mais de quarenta anos, segundo ele, que tem a sua banca naquele local, na esquina entre a Rua da Misericórdia e o Largo de Camões. Deixo-o, atarefado a colocar mais carvão no assador e sem grande vontade para conversas de circunstância. Os Portugueses são adversos à chuva. Com o mau tempo os carros dominam nas ruas, e as pessoas aquecem-se em casa.

Entrando pela Rua do Norte, fico com as calçadas empedradas do Bairro Alto só para mim. Estas estão ainda mais desertas, como que a antecipar algo. Talvez o fim da chuva, ou da chegada da noite e dos seus habitantes. Ou está ainda de ressaca da noite anterior. O Bairro Alto é conhecido como uma das zonas mais populares da noite lisboeta, com os seus incontáveis bares, cafés e casas de fado, que se enchem até de madrugada. Aqui convivem lojas de design de moda e tatto-shops, paredes meias com adegas tradicionais, como se sempre assim tivesse sido. As roupas estendidas sobre a minha cabeça e o cantar estridente dum canário denunciam que aqui também mora gente. Ouço, á distância, duas velhas a falar na varanda. Uma ainda de robe, como provavelmente passa a maior parte dos seus dias, a outra em local incerto. “Ah, isto o Mundo agora é da juventude. Isto agora é deles.” Calam-se enquanto eu passo, como que a esconder a conversa. Já comigo afastado continuam “Eu já estou pronta para ir quando a altura chegar.” “Ah, Senhora não diga isso.” – responde a vizinha aflita. De facto, este bairro tem cada vez mais moradores jovens, sinal da sua popularidade em Lisboa.

No topo da colina, a amplidão e largura da Rua D. Pedro V contrasta com as travessas escuras do Bairro Alto. Do miradouro de D. Pedro de Alcântara, olho os telhados da Baixa, e a neblina cinzenta que põe a cidade em suspenso. Mais atrás, o Castelo de São Jorge, a servir igualmente de pano de fundo às fotografias dos turistas que visitam a praça. Fora eles, apenas um casal de namorados, aconchegado debaixo do guarda-chuva. Mais abaixo, o elevador da Glória desperta-me a atenção. Os dois ascensores amarelos estão parados lado a lado a meio a colina, como que a pousar para um quadro imaginário. Dois rectângulos de cor sobrepondo-se a tudo o resto. Já a descer a Rua da Misericórdia é preciso cautela: a calçada portuguesa pode pregar partidas depois de uma chuvada.

Ao fim do dia, o largo do Chiado já está mais vivo. Já muitas pessoas se cruzam com as mãos cheias de sacos com logótipos facilmente reconhecíveis. Hoje em dia, as grandes multinacionais dominam os espaços do Chiado. Exibem grandes letreiros com nomes que facilmente se encontram em qualquer outra cidade do mundo. Por dentro ocupam espaços amplos, tentando aproveitar o glamour deste local, e a grandiosidade nos edifícios. Por fora, os Grandes Armazéns do Chiado mantêm-se altivos e imponentes, com a sua fachada histórica recuperada depois do incêndio de 1988. Para mim é das mais representativas da zona, um símbolo do auge do Chiado durante o século XIX. Mas por dentro desiludem, ao se terem tornado em mais um centro comercial vulgar, de lojas também vulgares, mas nem por isso menos concorridas.

Por entre o domínio do franchising resistem firmes as lojas clássicas do Chiado, em funcionamento há décadas e com vitalidade para muito mais. Na Rua Garrett encontro a Ourivesaria Aliança, com grandes carpetes verdes, dois sofás recuperados do século XIX, e o tecto trabalhado. Convida a entrar, de facto. Fosse eu rico e talvez houvesse prenda de Natal para a mãe. Mais abaixo, a Casa Pereira. Uma das pequenas montras de vidro exibe uma panóplia de bules e cafeteiras, chávenas e pires, cafés e chás, que enchem o olho e a montra. A outra tem uma variedade incrível de chocolates, afinal, dos melhores amigos do café. Imagino os aromas dos grãos recém-moídos a encher o ar e dirijo-me à porta. Oh não..! Está fechada… O dono encontra-se ao fundo, atrás da registadora, e eu sinto uma pequena esperança. Bato no vidro a perguntar, mas o seu agitar de mãos confirma-o. Bolas, vim no dia errado…

Ao entrar de novo no metro fico a olhar. O Chiado é um local de passagem, onde os Lisboetas pausam. Seja para uma bica e um pastel de nata n’ “A Brasileira”, ou para um cappuccino e cheesecake no mais recente café moderno. Isto é, se não chover.

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Uma resposta a Cidade suspensa

  1. Tânia diz:

    Tu tens jeito para a narração, rapaz! :) Consegui fazer o filme todo na minha cabeça.
    Gostei muito!

    Bjs,

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