Notas de Coimbra

Largo de Sta Cruz, Coimbra. Dez e tal da noite.

Pela primeira vez em muito tempo, consigo simplesmente…parar. Como música de fundo tenho as vozes e guitarras do fado de Coimbra que saem do restaurante com uma fachada impressionante, e com o mesmo nome da praça. Aproveito para olhar (e não apenas ver) a praça e os edifícios que a delimitam. As altas janelas rectangulares com varandas de ferro. O chafariz desligado em frente à Igreja. Os transeuntes que vão passando, quase todos espanhóis ou brasileiros. As fachadas destes prédios davam boas ilustrações. Arriscava mesmo, bons panos de fundo para muitas histórias em Banda Desenhada.

As ruas apertadas da Baixa de Coimbra, onde deambulei antes de aqui chegar, parecem paradas no tempo. Dominam as lojas de roupa e calçado, vestidos de noiva e baptizados, com um café ou uma tasca aqui e ali. Todas têm um ar que já não julgava possível: preços ainda escritos a marcador em cartolina verde ou amarela, letreiros feitos nos anos noventa e nunca mais substituídos. Aqui não há marcas internacionais ou cadeias de franchising. O que pode ser a razão pela qual estas lojas ainda subsistem, ou pela qual pararam no tempo… Existem, isso tenho a certeza, demasiados prédios abandonados, demasiadas casas vazias, subaproveitadas. O que cria um ambiente algo desolado e muito sombrio (arriscaria até inseguro) em muitas ruas. É o paradoxo do urbanismo Português: as cidades crescem em volta, mas o seu centro rui.

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Dou-me ao luxo de poder escolher a mesa mais perto da janela, com vista para a Sé Velha enquanto tomo o pequeno-almoço. É uma vantagem de estar pouca gente no hostel. A pequena sala tem uma lareira antiga (acho que desactivada) e dois sofás, onde aproveito os tímidos raios de Sol de Inverno que entram pela janela. Este hostel é um bonito edifício (bem) recuperado: foi a antiga maternidade Bissaya Barreto, e depois disso conservatório de música. As pinturas murais foram exaustivamente recuperadas, e a escadaria exibe novamente as ilustrações e textos realçando a importância da Mãe e da criança. Revelam o propósito de uma doutrinação mais ou menos subtil, no estilo seco e severo da propaganda do Estado Novo, mas com um conteúdo, arrisco, ternurento, em que os direitos da criança e o papel da mãe são os pilares centrais. Suspeito que o Serenata foi pensado por alguém que já passou muitas noites em outros hostels e aprendeu com a experiência. Pormenores como o formato dos beliches ou dos chuveiros indicam-me isso. Os dormitórios têm uma pequena mesa e cadeiras, ajudando ao convívio num espaço que, noutros sítios, consegue facilmente ser estéril. E gosto em constatar que houve uma grande preocupação com a eficiência energética também.

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Cheira a verde quando se entra no Jardim Botânico. E ainda assim, a maior parte das árvores encontra-se na sua nudez invernal. Aproveito para almoçar num dos vários bancos verdes de madeira, desesperadamente a precisar de manutenção. Conseguem passar dez minutos sem que ninguém atravesse a Alameda de Tílias, o corredor principal do Jardim. Sem dúvida que é uma manhã de Domingo, ainda para mais, de Fevereiro.

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Já o Jardim da Sereia não é tão convidativo a ficar. As embalagens de seringas vazias em volta da fonte que dá o nome (não oficial) ao jardim sugerem que este não será o melhor sítio para vir à noite…

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Que maratona para encontrar um café aberto e convidativo! Os sítios que vi abertos ontem à noite estão hoje fechados, os que estão abertos ficam em ruas sem Sol e com o vento a bater. Até que encontro o Muralhada, logo a seguir à Porta Almedina e me fico. À sombra, mas sem vento. E com ambiente. Aproveito para ler um bocado, levantando ocasionalmente os olhos para os turistas que passam e que me olham como se fosse parte da decoração exterior do café. Será da boina?..

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O Largo da Portagem à tarde é o oposto da manhã na parte alta da cidade. Trânsito, barulho, confusão, fumo. Confesso que me deixa desorientado. E nem há grandes pontos de interesse aqui. Salva-se o Mondego – afinal, a razão de ser da cidade – e a vista para a margem oposta, com o Convento de Santa Clara a sobressair. Tento saber a razão do nome do Largo, perguntando ao dono do café da paragem dos autocarros. Mas o velho, ou já está velho demais para se lembrar, ou não percebeu o que eu lhe disse. Está mesmo na altura de descer o rio e me ir embora.

(PS: ficam uns links – Hostel Serenata, Jardim Botànico, Café Muralhada.)

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