O Espírito de Barcelona

Posso admitir que fiquei obcecado com Barcelona nas semanas depois de lá ter ido. Fascinado em escrever acerca daquela cidade. Tanto era o fascínio… que bloqueei! Tornou-se um monstro indescritível. E dos rascunhos que fiz na altura, não lhes peguei até hoje. Andava em paranóia porque não conseguia descrever o que senti no ambiente daquela cidade, nem descrever o que É a cidade. Faltavam-me palavras, expressões, emoções para toda a vida e movimento que tornam Barcelona tão urbana como turística. Não me saia da cabeça, mas ao mesmo tempo, não a conseguia exprimir como gostava. Ainda assim, e correndo o risco de não fazer jus á cidade, aqui fica um primeiro esforço.

Assim que chegámos a Barcelona fomo-nos perder pelas ruas estreitas e labirínticas dos bairros d’ El Raval (onde ficámos, no acolhedor Hostal Radio), de Ciutat Vella e do Barri Gòtic, pela longa e cosmopolita La Rambla, e pelo passeio marítimo do porto antigo (Port Vell). Sem nunca sabermos bem onde andávamos, deixando-nos levar, meio pelo instinto, meio pelas gentes, e descobrindo cafés, lojas, praças, pequenos jardins, mercados de rua, esquinas convidativas, sempre, sempre cheias de gente. As pessoas é que fazem Barcelona o que ela é. Gente às compras, a comer, a descansar, no trânsito, de bicicleta, de skate, Catalães, Espanhóis e turistas, emigrantes mais ou menos legais. A cidade vive, nas ruas, nos cafés (e tantos que são), no trânsito (buzinas a toda a hora!), à janela de casa ou estendidos na praia ao fim do dia.

Dois bairros, El Raval e a Ciutat Vella, foram os que mais nos “falaram” e invariavelmente lá íamos parar quase todos os dias. Sentimos que eram as zonas mais alternativas, e com algo a dizer, de todas por onde andámos, cada uma á sua maneira. Para mim, El Raval é um bairro cujas ruas parecem tiradas de um filme rodado em Cuba. Calles pouco largas, prédios altos, de tons terra e barro, janelas altas com portadas de madeira dando para pequenas varandas com roupa estendida. Pelas ruas cruzamo-nos principalmente com pessoas de ascendência sul-americana (e com um castellano tão mais fácil de entender) e, supomos, filipina. As ruas mais interiores estão polvilhadas com mercearias e frutarias especializadas em produtos não-europeus, acentuando o carácter global do Bairro. Nas avenidas maiores e nas ruas periféricas é onde mais se nota a remodelação que esta zona da cidade teve nos últimos anos. Antes conotada como uma das áreas de menor reputação e mais perigosas da cidade, El Raval é agora terreno fértil para lojas de moda urbana, skate-shops, designers, cafés relaxados de esquina e lojas de discos que voltaram aos vinis. É também neste bairro que se situa o magnífico Museu d’Art Contemporàni de Barcelona, com a sua impotente fachada branca com a parte central em vidro, de traços simples. Por trás deste, o Centre de Cultura Contemporánia de Barcelona.  A ampla praça em frente ao MACBA – a Plaça dels Àngels – é um dos pontos de encontro de skaters para despiques e troca de manobras ao pôr-do-sol. E onde fica o Horiginal, o restaurante onde nos deliciamos com umas valentes tapas na esplanada no último dia! De noite, estas ruas transformam-se numa autêntica galeria de arte urbana, com virtualmente todos os portões de protecção das montras a serem ocupados com graffiti e pinturas. Com cada um que se fecha, é revelado mais um quadro moderno numa moldura de pedra, um estilo de arte que se adora ou odeia, mas que em Barcelona é cada vez mais visível. Com o passar das horas, vêm-se mais imigrantes indianos e norte-africanos, a maioria a tentar vender latas de cerveja à socapa, que guardam em sacos de plástico não identificados. Nas esquinas, debaixo da luz fraca e amarela dos candeeiros, estão trabalhadoras de saltos altos, saias curtas e demasiada maquilhagem. Algumas, diria eu, que para disfarçar a idade avançada…

Do lado Este de La Rambla, e a sul do famoso Bairro Gótico, fica a não menos característica e antiga Ciutat Vella. Tal como o vizinho El Raval, também este bairro tem a sua grande porção de lojas vintage e artesanais, bares e tavernas, bike-shops e pequenas galerias de arte. A grande maioria com gente jovem atrás do balcão, o que me mostra o espírito empreendedor, e arriscado, de quem aqui mora. E vêem-se bem mais turistas nesta margem de La Rambla, dada a proximidade da Catedral de Barcelona, das Igrejas de Santa Maria del Mar e Santa Maria del Pi, e do próprio Barri Gòtic. As ruas estreitas tanto sobem, curvam, descem, como abrem de repente em praças, maiores ou menores. A maioria das ruas tem trânsito reduzido (e ainda bem que assim é), o que ajuda a desfrutar do passeio.

Aqui, e por todo a cidade vêem-se lambretas, bicicletas, skates e trotinetas, todos os meios de transporte são válidos, e grandemente usados sem qualquer preconceito em Barcelona. Voltando à minha confissão inicial, devo dizer que esta cidade impactou-me tanto que sai de lá com vontade de aprender a circular de longboard, o meio de transporte/instrumento de acrobacias/acessório pessoal, que é super popular naquela cidade, e que nunca vi usar tanto em nenhum outro sítio. E a cidade está preparada para tal. Como para circular de qualquer das maneiras ditas acima, ou até de monociclo se fosse o caso. Faz parte da mobilidade e movimento de Barcelona. Segundo nos disseram numa skate-shop da Ciutat Vella, sempre houve pessoas a usar Longboards em Barcelona, mas nos últimos dois anos teve um aumento acentuado. Também não alheio ao facto da grande maioria dos passeios terem sofrido obras, criando rampas e desníveis de acesso, e da marcação de pistas para bicicletas. Esta sim é uma cidade preparada para a verdadeira mobilidade em ambiente urbano! Será que me aguento de longboard na caótica e mal-preparada Lisboa?…

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