Mostrar o que o Turismo de Natureza tem de melhor

Eu acredito que o turismo de natureza e de observação de vida selvagem é um dos bons caminhos para a sustentabilidade das regiões do Interior, e uma das melhores maneiras de promover o contacto de um público cada vez mais citadino com a Natureza. E em Portugal existem sítios espectaculares, com espécies magníficas em abundância, que valem a pena dar a conhecer, mas que ainda precisam de um empurrão para apostarem no eco-turismo.

Em Julho do ano passado tive o prazer de acompanhar dois jornalistas da edição Americana da revista de viagens Travel & Leisure em algumas zonas do Vale do Côa, Douro Internacional, e Sanabria, em Espanha. A experiência resultou numa reportagem na edição impressa da revista e dois artigos online (com um video), que acho que resumem muito bem o roteiro feito nesses dias:

See How Nature Has Reclaimed Portugal’s Côa Valley

“A Revolutionary Eco-Tourism Concept Comes to Portugal”

Isto foi um trabalho de equipa, em que eu participei em apenas dois dias, mas com toda a gente motivada em mostrar as paisagens, os animais, a cultura e os locais. Mas é preciso ter qualidade e capacidade de acolher. E foi isso que se procurou mostrar e que espero que transpareça a todos os leitores da revista e destes artigos.

(Um aparte, eu e amigos daqui rimo-nos com a melhor curta descrição que alguma vez fizeram de mim. Apesar de achar que para wildlife expert ainda me falta um bocadinho. :P )

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Até Santiago de Compostela a pé. Assim começa.

Em Rubiães tudo é sossego. Sente-se a calma de um domingo à tarde. O sol bate na entrada da Casa de São Sebastião e o seu calor reforça a moleza depois de um dia caminhada.

Saímos de Ponte de Lima de manhã, eram para aí nove e meia. Passar a ponte de pedra sobre o Rio Lima é uma óptima maneira de começar o Caminho Português de Santiago! É imponente, sólida, histórica e com uma vista fenomenal sobre o largo caudal do rio. Grupos de pessoas, de mochila às costas, botas de caminhada e roupa fluorescente juntavam-se e arrancavam dali.

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A ponte e os caminhantes.

Vimos bastante gente a caminhar. Iamos passando por grupos pequenos, duas, três pessoas; o maior que vimos eram seis. Quase todos estrangeiros. A dois quilómetros de Rubiães parámos no “Roulote Bar”, na freguesia de Águas Longas, Paredes de Coura e só ouvimos Alemão. Gente de três mesas diferentes falava entre si, suponho que a tocar impressões do caminho. Além de nós, só haviam mais dois portugueses no bar. Os mesmos dois únicos caminhantes lusos que vimos durante o dia todo. Mostra bem a relevância que cada população dá ao pedestrianismo e ao tipo de férias que fazem, mas também o valor que esta actividade pode ter para regiões rurais e/ou despovoadas. Rubiães, uma freguesia perdida do interior Minhoto, tem pelo menos 5 alojamentos, além do alberque de peregrinos, e dois bares/restaurantes. Pergunto-me se teria sequer algum, se o fim de uma das etapas do caminho de Santiago não fosse aqui.

O caminho no Concelho de Paredes de Coura é bem bonito, com muros de pedra antigos a ladear grande parte do trilho e carvalhos a fazerem sobra. Antes disso, a subida até ao Alto da Portela Grande desde Labruje fez jus à dificuldade que lhe dá fama. Ainda em Ponte de Lima vêm-se bosques ribeirinhos ainda bem conservados, com árvores altas e copas frondosas. Um regalo para os meus olhos de biólogo.
O primeiro dia já está, amanhã serão outros 18 quilómetros. Em total, eu e o meu Pai faremos mais de 150 quilómetros em 7 dias, até chegar, finalmente, a Santiago de Compostela. Até lá, “bom caminho”!

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"Bom caminho", no seu inicio.

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Duas coisas que gosto em Figueira de Castelo Rodrigo (eram para ser três, mas enfim…)

A chegada não foi fácil. Os primeiros tempos ainda piores. Ainda há coisas que são dificeis. Mas o concelho de FCR tem algumas joias. Cá estão duas delas:

A Reserva da Faia Brava. Como não podia deixar de ser, tinha de ser a primeira. Onde se podem ver Grifos, águias e outros abutres de perto. Mesmo de perto. Que se sentem antes de se verem. A paisagem abrupta do Rio Côa, cujam margens aqui formam escarpas altas, onde estas grande aves fazem os seus ninhos e encontram a tranquilidade necessária para criar. Os cavalos garranos que percorrem a Reserva em manadas quase selvagens. Os blocos de granito, cobertos de liquenes e musgos de Inverno, grandes e imponentes na paisagem árida do Verão. A Faia Brava foi inovadora em ser a primeira (e única até ver) Área Protegida de propriedade e gestão privada, neste caso da Associação Transumância e Natureza. Vale a pena uma caminhada, um passeio de bicicleta, uma manhã no abrigo fotográfico ou um dia à procura de aves e outros bichos.

O Cantinho Café em Castelo Rodrigo. Tem uma tão bela selecção de cervejas artesanais portuguesas que dá vontade de lá ir todas as semanas. E são escolhidas a dedo e com muito gosto pelos donos, o João e a Lena, que fazem questão de conhecer os mestres cervejeiros de cada uma delas. Para quem não é fã de cerveja (apesar de haver uma para cada gosto), tem lá o Licor do Poeta. Receita caseita de um licor cremoso, perfeito servido fresco depois de uma jantar de Verão. Têm um terraço fenomenal nas traseiras, com uma vista tão grandiosa como a simpatia dos donos. Se tiverem por perto, passem por lá.

E por fim, porque não três?
Os restaurantes do concelho têm alguma aversão a comida regional. Ou então ela simplemente deixou de existir aqui. Desde que para aqui vim que uma minhas principais queixas tem sido que todos os restaurantes só sabem fazer bifes e bacalhau. Felizmente existia o Lagar, em Escalhão (a maior freguesia de FCR)! Renovou e refez muitos dos pratos regionais, e sempre que lá fui saí bem satisfeito e com a estômago a sorrir! Mas fechou… segundo ouvi o dono voltou para Lisboa, se onde era. A região ficou mais pobre nesse dia. E uma lista de três coisas passaram a duas… Felizmente em Barca d’Alva continuam a servir as migas de peixe e peixes do rio fritos durante o Verão. Valha-nos meio ano.
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A Salamanca, para almoçar!

Fomos festejar um aniversário a Salamanca! Ou melhor, fomos almoçar a Salamanca para festejar os anos! Depois de espreitarmos as opções na Rua Mayor e na Plaza Mayor, sem nada nos chamar a atenção, demos de caras com o Montero – restaurante / bar / casa de comidas alegadamente fundada em 1890. Se tem de facto 125 anos, não sei, mas acertámos em cheio com a comida.

La carta

La carta

Mmm......

Mmm……

Pedimos um salmorejo, porque somos fãs desta sopa de tomate fria e pedimo-la em qualquer lado. Cativaram-nos os bombons de morcela com crocante de frutos secos e maionese de alho. Das sugestões do dia veio a terrina de beringela e queijo de cabra, com pimento assado em cima. No meio de tanta coisa boa, a única desilusão é mesmo o vinho espanhol… É bom quando entra na boca, mas sem estrutura e sem sabor que perdura. Mesmo sendo da tão famosa La Rioja. Ainda assim não estragou o resto. Para acabar, o melhor de todos, um arroz meloso de galo, cozinhado no forno com vinho tinto. O sabor estava soberbo, e com a carne toda arranjada, era só mesmo meter à boca! Só não pedimos de novo, porque a cozinha, entretanto, tinha fechado!

Bombons de morcela e crocante

Bombons de morcela e crocante

O delicioso arroz de galo...

O delicioso arroz de galo…

E hoje temos:

E hoje temos:

Já de noite

Já de noite

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Passeio às orquídeas

28/03/2015. Passados quase seis meses voltei ao Alentejo. À margem esquerda do Guadiana.

Convidaram-me para um passeio na Serra da Adiça, com antigos colegas, agora bons amigos. O passeio foi dedicado às orquídeas, que encontram neste conjunto de serras baixas terreno fértil para se mostrarem. Aqui, as orquídeas aparecem principalmente nas partes mais elevadas, misturadas com outra vegetação natural. As áreas mais baixas e planas são usadas para olivicultura. E esta zona de Moura é bem conhecida pelo seu azeite. Ainda que sejam olivais tradicionais, parte da sua gestão corrente consiste em remover toda a vegetação que possa competir com as oliveiras por água e nutrientes (lavrando a terra, ou com produtos químicos). Portanto é muito improvável conseguir ver orquídeas nos olivais. Mas nas partes altas, demasiado ingremes para alguma vez terem sido plantados, ou com olivais abandonados por se tornarem ingeríveis, a vegetação original, nativa e mediterrânica abunda. Neste dia passámos por azinheiras, carrascos, aroeiras com três metros, medronheiros, alecrins e alfazemas, lírios e vários outros. E claro está, orquídeas! Um simples passeio de 10km deu pelo menos 10 espécies diferentes! Algumas cobrindo áreas mais extensas, outras aparecendo aqui e ali. Das cerca de 70 espécies existentes em Portugal, os especialistas dizem que cerca de 27 ocorrem nas serras de Belmeque, Adiça e Ficalho. Este é de facto, um dos excelentes locais em Portugal para se observar orquídeas. Incluindo a rara Orchis collina.

Apesar de estarem presentes um pouco por todo o país, as orquídeas dão-se melhor em terrenos calcários e ocorrem em maior abundância na Serra de Aire e Candeeiros, a Serra de Montejunto, a Serra da Arrábida e as serras Algarvias (Monchique e Caldeirão). Estes são, por isso, outros excelentes locais para a observação destas plantas.

Durante a caminhada lá íamos parando sempre que aparecia uma espécie nova, ou um exemplar particularmente bonito. A identificação de que espécie estaríamos a observar por vezes demorava, e muitas dúvidas só foram esclarecidas quando chegámos a casa. Mas o desafio não tornava cada flor menos bonita por isso. Ainda antes de almoço, chegamos ao topo da cumeada irmã da Adiça – o Álamo – e a vista perde-se pela paisagem Alentejana. Muitos olivais, mas também prados, pastagens, aldeias e gado. Ao longo do dia tivemos ainda a companhia de várias aves de rapina, como Águias-cobreiras, Águias-calçadas e Águias-de-Asa-Redonda. Já perto do final, encontrámos uma bonita pegada de texugo.

O nosso guia do dia foi o meu amigo Jorge Candeias, que organiza passeios não só na Serra da Adiça, mas um pouco por todo o Baixo Alentejo. Recomendo-o, como bom conhecedor da zona, caso queiram observar orquídeas, aves, ou apenas fazer uma caminhada. Caso queiram saber mais sobre a Serra da Adiça, vejam o blog do Ivo Rodrigues, entusiasta da região. Para orquídeas, recomento o grupo Orquídeas Silvestres de Portugal no facebook. Agora, vão á procura delas!

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As últimas horas

Acabei o último Trilho dos Pescadores da minha Rota! O último metro do Trilho da Praia do Telheiro, falta um mero quilómetro para o farol do Cabo de São Vicente. A parte final foi desafiante, mas divertida de se fazer! Pedras brancas saiam do solo por todo o lado, o caminho era através delas. Era preciso malabarismos para saltar de uma para a outra, ou para colocar os pés entre elas. Eu ia tão motivado que saltitava a correr de pedra em pedra, contente por ver o fim à vista e para chegar a tempo de ver o pôr-do-Sol no final. Saltava entre pedras, a mochila agarrada às costas, o sol a descer do Horizonte. A luz perfeita batia-me nas costas, sabia que tinha tempo suficiente para chegar, estava a aproveitar para gozar o caminho e a vista, estava tudo a ficar perfeito.

Vejo agora a estrada alcatroada a escassos metros, mas reparo numa indicação do Caminho Histórico à minha direita. Vejo então no mapa que o último quilómetro da etapa, e da minha Rota, ainda vão pelo campo, fora de estrada. Um cotovelo no caminho à direita, curva à esquerda, e o farol fica em frente! Por esta altura já várias pessoas se sentavam em frente ao forte, à espera do pôr-do-sol. Sabia que me ia juntar a elas em breve. Agora que penso nisso, nem dei por este troço do caminho passar. Só reparo quando chego novamente à estrada, a escassas centenas de metros do farol. Telefono à Sabrina, que tinha chegado de carro entretanto, e convido-a a vir ao meu encontro para fazer os últimos metros comigo. Quando a vejo emociono-me, quando a abraço estou prestes a chorar. Estou alegre, estou emocionado, comovido, entusiasmado! Nem sei o que sentir, mas tenho inícios de lágrimas nos olhos. “Vá, ainda faltam uns metros” diz-me ela. Sorrio, e avançamos de mãos dadas, lado a lado, cada vez mais perto do farol. O Sol está cada vez mais baixo, e a luz dourada vem da nossa direita. Sinto uma chegada apoteótica dentro de mim! Toda a minha concentração está no final, em ver a grande tabuleta que marca o fim (ou o início) deste troço. Estas placas da Rota Vicentina têm sido sempre o ponto final de todas as minhas etapas, independentemente de onde fique a dormir. Chego ao Forte. Finalmente! Mas… não vejo a placa. Procuro por todo o lado. “Não pode ser, não há placa?!” Aqui, no início e final de toda a Rota?! Vejo uma seta de madeira com a tipologia do Caminho Histórico: “Santiago do Cacém 220km”. Não pode ser isto! Onde está a grande placa, onde está o marcador do meu final apoteótico? Não existe, não há nenhum… É o completo anticlímax, o crescendo de emoções deixadas no ar, sem alvo. Quase um balde de água fria, desorientação total, sem o ponto final da minha história. Todas as etapas tinham uma placa da Rota, onde estava a desta, a mais importante de todas?

Tento pôr essas emoções de lado. Entro no forte, vitorioso e sorridente. Olho o farol, com o seu chapéu de metal vermelho. O Sol está a poucos minutos do mar, do lado exactamente oposto a lua já se vê. E está Lua Cheia. Tudo se compõe, tudo está alinhado. Cheguei! Estou no final. Acabou! “E agora, que faço? Salto, grito, rio, choro?” Fico apenas de sorriso aberto a admirar a conjugação de todos os elementos. Levanta-se um vento forte e muito frio. No horizonte, uma densa neblina parece que se materializou em minutos, dando um toque de maior mística. Salto, tiro fotos, filmo, rio-me, rio-me muito! Abraço-me à Sabrina! Nunca tiro a mochila, não quero, faz parte de mim agora. E, no entanto, não consigo deixar de pensar no raio da placa! Onde estará? Porque é que não há nenhuma aqui? Não consigo afastar a sensação de estar incompleto. Também não há tempo para isso. O Sol está-se a pôr! Saímos do forte já com o segurança à porta para o fechar. Juntamo-nos ao grupo disperso sentado na falésia, banhado pelos raios dourados do fim de dia. O Sol está baixo. Muito baixo. Entra na camada de neblina, pouco depois toca no mar. Ficamos a vê-lo dissolver-se lentamente, a passar para lá do horizonte, a levar um novo dia a alguém no Mundo. É bonito, é emocionante, é comovedor. Bato palmas (sou defensor que o devemos fazer em todos os espectáculos naturais), agradeço ao Sol a companhia dos últimos dias, faço-lhe uma vénia com a cabeça. O céu agora é da Lua, grande e luminosa no fundo escuro. Ficamos a vê-la, imensa. São horas de ir, mas não quero partir. Estou ligado a este lugar, à ponta de Portugal e da Europa. Não sei mais que fazer. Resolvo filmar a minha despedida, o final do meu tempo a andar. Olho o farol e olho a Lua. Abro a mala do carro, coloco a mochila lá dentro. Fecho a mala. Respiro fundo, olho de novo para a Lua, já é noite cerrada. A luz do farol, já ligada, dá voltas. A neblina espessa mostra um tubo de luz que sai dele, à roda, num ciclo regular. Despeço-me dele, fica guardado na memória. Entro no carro, lugar do passageiro. Vamos lá!

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E o Cabo ali tão perto

É incrível como só faltam dois dias para Sagres! Duas etapas para terminar! Passou num instante. Até o caminhar pareceu rápido, foram muito poucos os momentos do “nunca mais chego”.

O meu plano era colocar posts mais ou menos sequenciais da minha Rota Vicentina. Mas ontem, sem esperar, olhei o meu destino nos olhos. Da praia do Amado, perto da Carrapateira, vê-se o Cabo de São Vicente em toda a sua grandeza! E atingiu-me: estou quase!

Passei ontem o dia na Carrapateira. Hoje foi caminhar até Vila do Bispo e amanhã a meta, o Cabo de São Vicente. O fim está à vista mas, neste caso, o fim é o que menos interessa. O objectivo está no caminho e no que se tira dele. As pessoas que conheci, os lugares que visitei, as paisagens que pude ver (e os robalos na brasa que comi). Parece cliché, mas é mesmo assim.

Felizmente o fim é um local magnífico, icónico e emblemático para a História de Portugal e para quem viaja.
É o ponto mais a Sudoeste da Europa continental e, segundo reza a lenda, foi daqui, que no século XV partiram as primeiras naus para os Descobrimentos Portugueses, talvez a maior viagem da nossa História.

E é esse o meu destino amanhã. Vamos lá!

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O Cabo, o meu destino está à vista!

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